Mostra da agricultura familiar estimula debate sobre produção de alimentos no Semiárido

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Agricultores e agricultoras levaram seus produtos para exposição | Foto: Viviane Brochardt

Mel, farinha, leite de coco, doce, inhame, batata doce, alface, coentro, cebola, pimentão, banana, laranja, maracujá e sementes. Muitas sementes. Essa poderia ser mais uma feira da agricultura familiar, mas a mostra de produtos comercializados pelos estados através do PAA e do PNAE, que abriu último dia do 2º Seminário Regional de Avaliação do PAA no Semiárido (21), trouxe mais do que alimentos. Trouxe conhecimento.

Diferentemente das feiras que costumam acontecer nos eventos da ASA, desta vez, os agricultores e agricultoras expuseram seus produtos e retornaram para a plenária, que aconteceu no mesmo espaço da mostra, para ouvir o representante da sociedade civil na Câmara de Controle Social do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Carlos Eduardo Leite, também conhecido com Caê, que falou sobre os três pilares do debate atual sobre a alimentação: segurança alimentar, segurança nutricional e soberania alimentar.

Caê fez uma retrospectiva dos fatos relacionados à luta pela alimentação adequada e saudável, destacando o papel fundamental de Betinho no combate à fome, da importância da agricultura familiar no Semiárido nesse contexto e de como o País incorporou essa questão na sua política. Apesar dos avanços, ele ressaltou que a soberania alimentar é algo ainda não concretizado no Brasil. “Falar disso, é falar da autodeterminação dos povos. É podermos dizer o que queremos plantar e o que queremos produzir e isso ainda não é uma realidade”.

Segundo Carlos Eduardo, a ASA teve um importante papel na construção da política atual de segurança alimentar e nutricional do País. “A ASA foi fundamental na mobilização dos atores do Nordeste e no debate do alimento não só como mercadoria, mas como um elemento relacionado à terra”.

A partir dessas reflexões, Caê convidou todos os participantes para circularem pela mostra, observando a diversidade dos produtos, a partir de dois questionamentos: (i) Qual o nosso desafio para diversificarmos ainda mais nossa produção e como os programas da ASA podem contribuir com isso?; (ii) Estamos perdendo ou deixando de lado o direito à alimentação a partir da comercialização?

De acordo com Maria José Dias Ramalho, agricultora do agreste pernambucano, os programas da ASA ajudaram as pessoas da localidade a organizar a produção de acordo com a disponibilidade hídrica e a produzir sem agrotóxico. “Hoje sabemos plantar e criar animais com a quantidade de água que temos. Aprendemos também a produzir sem veneno, de forma agroecológica, e a diversidade é grande. Temos além das frutas, verduras e legumes, cabra, porco e galinha”.

Ela explica que todo o excedente é comercializado nas feiras das redondezas, mas que muitas vezes não é compensador, pois existem muitos gastos com o transporte dos produtos, entre outras coisas e, o PAA e o PNAE acabam sendo boas alternativas de venda. “As pessoas às vezes criticam porque ficamos esperando pela compra do governo, mas se não é para termos esperança nesses programas, porque eles existem?”, questiona Maria José.

Já a agricultora Zilma Maximino, do Cariri Oriental, na Paraíba, orienta para importância da sociedade civil se apropriar cada vez mais acerca do debate sobre o direito à alimentação nos municípios, atuando de forma efetiva nos espaços de decisão. “Infelizmente, os delegados eleitos na Paraíba para participar da próxima Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, que acontecerá aqui em Salvador, no mês que vem, não têm a mesma concepção que a gente da ASA sobre esse direito, fora que os municípios dão pouca importância para isso”.

Em cada um dos estados, foram apresentadas as dificuldades que precisam ser superadas no sentido de ampliar e melhorar as políticas de acesso aos mercados institucionais. Por outro lado, esse momento de troca possibilitou também identificar potencialidades já existentes em muitas regiões e que estão sendo estimuladas a partir do PAA e do PNAE, como o aumento na diversificação da produção, a valorização da cultura alimentar, o resgate de hábitos alimentares e o reconhecimento do potencial das sementes nativas.

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