Relato de um intercâmbio na comunidade quilombola Sítio Veiga
São Gonçalo é uma dança tradicional na comunidade quilombola Sítio Veiga | Foto: Monyse Ravena |
Local isolado, formado por escravos negros fugidos… Esta talvez seja a primeira ideia que vem à mente quando se pensa em quilombo. Se pedirem um exemplo, o Quilombo de Palmares, com seu herói Zumbi será certamente a referência mais imediata. Mas nem sempre a história das comunidades quilombolas começa assim, embora a resistência esteja presente, com certeza.
Participamos do Encontro Estadual dos Agricultores/as Experimentadores/as do Ceará, na Serra do Estevão, ou melhor, na Serra do negro Estevam, que, segundo contam, foi um negro que se refugiou naquela serra. Por um decreto da prefeitura, há alguns anos, oficialmente o nome do distrito passou a ser Serra D. Maurício, mas, entre os moradores, o nome não pegou. Saindo da cidade de Quixadá são 62 curvas até chegarmos à comunidade de Sítio Veiga.
O Sítio Veiga é uma comunidade camponesa, como muitas espalhadas em nosso território, mas é além de camponesa, quilombola. As comunidades quilombolas são herdeiras históricas dos quilombos. Por sua vez, os quilombos não pertencem somente a nosso passado escravista. Tampouco se configuram como comunidades isoladas, no tempo e no espaço, sem qualquer participação em nossa estrutura social.
Ao contrário, as mais de 2 mil comunidades quilombolas espalhadas pelo território brasileiro mantêm-se vivas e atuantes, lutando pelo direito de propriedade de suas terras consagrado pela Constituição Federal desde 1988.
No Sítio Veiga, moram 45 famílias, a maioria é formada por negro e negras. Há mais de 100 anos dançam o São Gonçalo e comemoram todo dia 11 de novembro, o dia da consciência negra. Em 2009, a comunidade sediou o Encontro Estadual de Comunidades Quilombolas, acolhendo 120 pessoas de todas as partes do estado. Todas essas atividades também atuam no sentido de conscientização e reflexão da própria comunidade. As famílias do Sítio Veiga ainda plantam em terras de outros donos e pagam a renda aos donos e ainda os veem como pessoas boas.
Quem nos apresenta a comunidade e conduz o diálogo são Ana e Antônio. Homem e Mulher. Lutador e Lutadora. E é Antônio que nos esclarece que hoje apenas 27 comunidades no Ceará são reconhecidas e certificadas pela Fundação Palmares, e o Sítio Veiga é uma delas. O primeiro passo para o reconhecimento oficial das comunidades quilombolas é o autorreconhecimento e o reconhecimento das comunidades vizinhas.