Quintais Produtivos: a despensa de quem vive no campo

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Agricultor Zé de Dalino apresentando seu quintal produtivo ao técnico José Ricardo.| Foto: Márcio Aguiar

Com o objetivo de acompanhar o processo de implantação e dar assistência técnica às famílias que conquistaram tecnologias sociais de captação de água de chuva para produção de alimentos, o Projeto Mais Água vem realizando um conjunto de ações, dentre elas as visitas técnicas.

José Ricardo, técnico de campo do Projeto Mais Água e o coordenador Márcio Aguiar realizaram uma dessas visitas na propriedade do Senhor José Santos Lima, também conhecido com Zé de Dalino, na comunidade do Bonito em Piripá (BA), e conheceram o quintal produtivo do agricultor. O agricultor possui em sua propriedade um Sistema PAIS (Sistema de Produção Agroecológica, Integrada e Sustentável) e está sendo beneficiado pelo Projeto Mais Água com a construção de uma cisterna de produção.

Durante a visita o agricultor que apresentou seu quintal produtivo e contou aos técnicos o modo como faz o manejo do solo e da água em sua propriedade:

– Graças a Deus eu tenho o privilégio de dizer que isso tudo aqui é orgânico e que não uso nada químico, porque hoje em dia eu tenho uma familia, tenho um filho, e tenho prazer de meu filho pegar uma fruta dessa aqui e fazer a alimentação dele no café da manhã, na sobremesa do almoço. Você vê estes pés de planta aqui, sem limpar, mas é uma produção boa.

Em sua propriedade Zé planta de tudo um pouco: Aqui tem laranja comum, pocã, pés de café, uns pezinhos de cana para alimento animal, e tenho também hortaliças, que tenho um projeto Pais, do Governo Federal, tudo produzido de forma orgânica. 

Zé é de fato um agricultor experimentador e conta que esta experiência foi adquirida apartir das capacitações e encontros que participa seja pela Cooperativa do Rio Gavião (COOPERGAVI) ou pela ASA Brasil, juntando o jeito tradicional de produzir com as novas técnicas ele vai plantando, observando e adaptando conforme a realidade da sua propriedade e da região utilizando a cobertura morta e fazendo o manejo da água e conseguindo produzir apesar do longo período de estiagem.

Como um agricultor experimentador ele integra a produção de hortaliças, frutas e verduras com a criação de animais, como por exemplo, a criação de galinhas, que fornece o esterco utilizado para a adubação dos canteiros. Na propriedade tem ainda uma área onde se cultiva cana-de-açúcar utilizada na complementação da ração para o gado, aproveitando os restos da plantação, juntando com capim e a cana e passando na trituradeira. A cana também serve como complemento na renda da família, pois o município de Piripá é um grande produtor de cachaça e de outros produtos derivados da cana, o que não é utilizado na fabricação desses produtos também pode ser vendido.

 A estocagem da água para molhar a plantação era um problema na propriedade. Como a cisterna-enxurrada está ainda em construção, Zé usou a criatividade para suprir a necessidade de água e outros cuidados que a plantação necessita. Com pouco recurso financeiro e a necessidade de água para cultivar, ele criou uma tecnologia alternativa. Para aproveitar a água de uma nascente que tem na serra, e que chega por gravidade através de uma mangueira, escavou um buraco no solo e revestiu de lona, uma espécie de barreiro de lona, com capacidade para acumular cerca de 50 mil litros de água e faz a irrigação dos canteiros, por gotejamento, de três em três dias. Para proteger os canteiros mais novos do sol e do vento, plantou uma leira de milho e outras plantas altas que servem como quebra vento e sombreamento para as plantas mais frágeis além de manter a umidade do solo.

Para o agricultor, que aprendeu com seus antepassados a cultura de cultivar de tudo um pouco e ter a preocupação de produzir com qualidade para alimentar a família, a propriedade é mais que roça e horta, como ele mesmo diz: “Eu costumo chamar isso aqui de despensa. Quando eu entro na despensa em casa eu sempre vou achar alguma coisa para comer. Aqui na minha roça é a mesma coisa. Tem um pé de alface, de cenoura, um mamão pra comer cortado ou maduro, o andu pra fazer uma farofa… tem de tudo sobra um pouco”.

O excedente da produção Zé leva para a feira livre do município de Piripá, onde tem um ponto de venda. Quando chega a feira os fregueses já o estão esperando, pois conhecem a procedência e a forma como é produzido e sabem que é saudável o alimento que estão comprando . A renda da venda da produção serve para suprir as necessidades da família e comprar aquilo que não é produzido no seu quintal.

Com a construção da cisterna de produção Zé tem a expectativa de aumentar a produção e continuar produzindo, sobretudo no período de estiagem, no qual a água se torna mais escassa e diminui a produção.  O Projeto Mais Água prevê a realização de 4.425 visitas técnicas às famílias contempladas com tecnologias de captação de água para produção de alimentos.

 *Santina André é comunicadora popular do Projeto Mais Água da Associação Divina Providência – Brumado/BA

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