Após oito anos, acusado pelo Massacre de Felisburgo será julgado nesta quarta (15)
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Passados oito anos de uma cena de invasão, tiros e fogo, acontecida num acampamento de famílias sem terra no Vale de Jequitinhonha (MG), o mandante do crime, o fazendeiro Adriano Chafik, será enfim julgado. Presidido pelo juiz Glauco Eduardo Soares Fernandes, o julgamento será depois de amanhã (15), no Fórum de Belo Horizonte, no 2º Tribunal do Júri.
Nesta tragédia, conhecida como o Massacre de Felisburgo – devido ao nome do município – cinco pais de família e trabalhadores rurais perderam a vida, 12 pessoas sofreram ferimentos, inclusive crianças, e todos os que testemunharam a violência física ficaram com marcas psicológicas profundas.
O episódio aconteceu em 20 de novembro de 2004, num amanhã chuvosa. O fazendeiro Adriano Chafik e mais 15 pistoleiros invadiram o acampamento do Movimento Sem Terra (MST) chamado Terra Prometida em plena manhã de sábado, por volta das 10 horas da manhã. Já chegaram atirando. Atearam fogo nos barracos e na escola. Fortemente armados com pistolas, escopetas e rifles, cujas notas fiscais de compra foram encontradas na sede da fazenda.
As famílias vinham sendo ameaçadas havia mais de dois anos e vários boletins de ocorrência foram feitos na delegacia local. A impunidade sempre foi a marca local.
O réu se dizia “dono” do imóvel, mas esta alegação é questionável. Na Fazenda Nova Alegria – palco do massacre – o Instituto de Terras de Minas Gerais (ITER) comprovou que pelo menos 515 hectares de terras são devolutas. E nesta disputa, que foi até o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) – instância máxima – o fazendeiro já perdeu, tendo sido transitado em julgado a decisão que confirma que as terras eram públicas (certidão da Segunda Turma do STJ registro 2011/0168030-3 REsp 1.265.676).
Tal falta de fundamento na alegação do fazendeiro torna ainda mais absurda sua conduta criminosa. “Os trabalhadores que lutam por Reforma Agrária e denunciaram a apropriação de terras públicas foram injustamente assassinados há mais de 8 anos e está hoje não foram atendidos pelo estado brasileiro. E agora clamam pela justiça e condenação dos assassinos”, pronuncia Afonso Henrique de Miranda, procurador de Justiça da Vara de Conflitos Agrários de Minas Gerais.
Os sem-terra prometem chegar a Belo Horizonte antes do início do julgamento e avaliarão a necessidade de parar rodovias e avenidas. “Estaremos com pelo menos três mil pessoas na capital. Caso seja necessário fazer pressão, fecharemos todas as entradas de BH, por meia hora, todos os dias” diz Silvio Cardoso, da coordenação do MST.
“Queremos ser recebidos na capital para acompanhar o julgamento, e não é nosso desejo prejudicar o trânsito. O Ministério Público tem nos dito que as provas nos autos são incontestáveis, porém temos visto como no Brasil a Justiça é falha. Caso o assassino saia impune, aí sim vamos manifestar”, conclui.
* Com informações do MST