Assentamento Moacir Lucena, em Apodi, passa por estiagem com fartura de alimentos
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Visita à área de manejo da Caatinga do assentamento Moacir Lucena. | Foto: Gleiceani Nogueira |
Faz quase 30 meses que não chove no assentamento Moacir Lucena, localizada no município de Apodi, no semiárido potiguar. As últimas chuvas caíram em 2011. E basta olhar para a vegetação ao redor da estrada de barro que dá acesso ao assentamento para perceber os sinais da estiagem. As plantas de caules compridos estão nuas, em tom cinza. O único contraste à paisagem são o céu azulão e as cabras branquinhas que se vê aqui e acolá em meio à Caatinga. Quem conhece o Sertão, sabe que a natureza não está morta. As plantas aparentemente sem vida armazenam água no caule e nas raízes como uma forma de se adaptar as irregularidades das chuvas na região.
Entender a natureza do lugar, o funcionamento das plantas, dos bichos e do solo foi fundamental para que as famílias do assentamento transformassem a terra pobre, onde trabalhavam como meeiros antes da desapropriação para reforma agrária, num lugar cheio de vida e boas experiências para compartilhar. O assentamento se tornou uma referência e recebeu, no final de mês de outubro, a Caravana Agroecológica e Cultural da Chapada do Apodi, evento de preparação ao III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA).
“Aqui em Moacir a gente abraçou essa causa, regou a plantinha chamada conhecimento e hoje estamos colhendo os frutos que é de passar por duas grandes secas e não ter perda de rebanho e não ter aquela carência de ficar mendigando cesta básica ao poder público ou saqueando comércios particulares. Então pra gente, o conhecimento que a gente adquiriu ao longo dos anos, foi fundamental pra gente superar esses 30 meses de seca”, conta Seu Zé de Holanda para os participantes da caravana, que ouviam atentos a apresentação do agricultor na sede da associação.
O conhecimento do qual Zé de Holanda se refere está associado a uma mudança de paradigma baseado na convivência com o Semiárido que se contrapõe a política do “combate à seca”. O principal pilar da convivência é a estocagem. E isso os moradores de Moacir Lucena conhecem bem. Desde 2009, eles adotaram um sistema de armazenamento de alimentos para passar quatro ou cinco anos, que servirá tanto para o ser humano como para os animais.
A principal estratégia adotada pelas famílias é o sistema de manejo da Caatinga, através de três técnicas: o raleamento, o rebaixamento e o enriquecimento. A primeira consiste em observar as espécies que compõem a vegetação e retirar a que mais predomina – no caso do assentamento é o Pau- Branco – para que outras possam surgir, com o objetivo de aumentar a produção de forragem. O rebaixamento é uma broca manual de espécies lenhosas para a alimentação animal, a uma altura de 20 a 30 cm.
“Então o raleamento é tirar um pouco do que tem demais e rebaixamento trazer lá de cima pra o alcance do animal e aí promover um espaço onde vão surgir novas espécies que, com certeza, estavam quase em extinção, como a aroeira. E a semente que cair aqui esse forro vai servir de berço para que ela permaneça no solo e com a chuva vindoura, ela irá germinar e teremos uma variedade de pastagens tanto apícola como de suporte animal e também de origem”, explica o agricultor.
Já o enriquecimento, seu Zé de Holanda explica que é difícil fazer sem um sistema de irrigação. Mesmo assim, eles adotaram um modelo à base de espécies como a leucena, a moringa, a flor de seda e também do plantio de estacas de frutíferas como a cajarana, a seriguela, o cajá, que servem para a produção de polpas. “Esse é o enriquecimento que a gente conhece, trazendo também um pouco do próprio capim que no período do inverno tem aquele poder de rebrota”, afirma.
Esse sistema em nada lembra o modelo baseado na broca e na queimada que as famílias praticavam há 15 anos. Naquela época, a única renda que eles tinham era da produção de sequeiro (milho, feijão e algodão). Hoje, além desse tipo de cultivo, eles desenvolvem a apicultura, a caprinocultura melhorada tanto para corte como para leite, quintais produtivos, banco de sementes. Toda essa diversidade tem proporcionado uma melhoria de vida para as famílias, ajudando inclusive a manter os filhos na terra. No assentamento também há um grupo de jovens, formado atualmente por 26 pessoas, que desenvolve trabalhos com reciclagem, horta, etc.
“De 1998 a 2000, por não ter os conhecimentos dos potenciais que existiam aqui, era difícil mesmo. A gente via filho nosso trabalhando em outra propriedade pra ganhar dinheiro. Mas hoje não (…..) A produção do lote é a produção familiar aonde vai o homem, a mulher e o filho, a questão da comercialização e o lucro financeiro também é rateado entre todo mundo de casa. Eu acho que tem sido isso que proporcionou a permanência dos jovens ao lado dos pais”, avalia Holanda.
Em relação à água, cada família possui uma cisterna de placa para o consumo humano. Por conta do período prologando de seca, as cisternas tiveram que ser abastecidas pelo carro-pipa. Também dispõem de um poço artesiano (cerca de 90 metros de fundura) que abastece uma caixa elevada de 22 mil litros que distribui água para os 20 lotes de 19 hectares cada, por meio de um sistema de adutora. Essa água é usada para dar de beber aos animais e também para o plantio de algumas capineiras e fruteiras. Os quintais produtivos são aguados com água reaproveitada da pia e do banheiro.
“Tudo isso são coisas pequenas, fáceis de fazer que a gente sem conhecimento não praticava e estava matando o solo, ano a ano, mas a partir do momento que juntou o conhecimento técnico e a prática do agricultor a gente viu as mudanças, as transformações, a fauna voltando, nossos animais, a flora viva novamente, a produção do mel sendo aumentada. O Semiárido é uma caixinha de segredos, só precisa observar, praticar e conviver. Não é difícil”, ensina o assentado.
Algodão, o carro-chefe de Apodi
A região de Apodi é grande produtora de algodão. No entanto, as famílias quase desistiram do plantio da cultura devido aos prejuízos causados pelo bicudo. O cultivo era feito em sistema de monocultura, facilitando o ataque da praga. Com o apoio técnico de várias entidades como o Projeto Dom Helder Camara, a Coopervida e a Embrapa, as famílias decidiram fazer o plantio consorciado do algodão com outras quatro culturas: milho, feijão, gergelim e sorgo. A experiência deu certo e em 2011 o território de Apodi atingiu a produção de oito toneladas de algodão agroecológico. Pelo Moacir Lucena, Seu Zé de Holanda produziu de 1.200 a 1.300 quilos de pluma, tornando- se o maior produtor do assentamento.
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Agricultor Zé de Holanda conta a história do assentamento aos participantes da Rota Romana Barros, da Caravana Agroecológica e Cultural da Chapada do Apodi. | Foto: Gleiceani Nogueira |
Cada família assume o compromisso e plantar, no mínimo, um hectare do cultivo sendo 50% de algodão e 50% para as outras culturas. Para incentivar a produção nos lotes, as famílias buscaram o mercado e conseguiram assinar o contrato com duas empresas para fornecimento da pluma. De acordo com Zé de Holanda, elas pagam um preço justo pelo produto “ser agroecológico e proveniente da agricultura familiar”.
“O retorno da semente pra gente teve uma importância grande, principalmente, nesses anos de seca. Guardamos uma quantidade grande de semente já preparando para dois anos de plantio e o restante contribui muito para que os animais permanecerem gordos. Antigamente, esse algodão ia embora. A gente vendia de forma bruta, na rama como se chama, pluma, caroço, tudo ia embora. E a gente não nem tinha o conhecimento do que era feito com o nosso algodão. E agora não. Sabemos que ele é usado na fabricação de roupas, tênis. E pra gente é muito gratificante colocar uma camisa feita com fios do algodão que nos produzimos”, diz sorridente o agricultor.
A ameaça do Projeto da Morte
Quando decidiram lutar pela posse da terra, em 1996, as famílias queriam conquistar a liberdade que não tinham trabalhando como meeiros numa grande fazenda. Dois anos depois, após a conquista da terra, anunciada pelo programa de rádio a Voz do Brasil, como lembra Seu Zé de Holanda, as famílias iniciaram uma nova vida, um verdadeiro renascimento. Nesse período elas contaram com o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Com muito trabalho e união, transformaram o assentamento Moacir Lucena em uma referência da agricultura familiar camponesa. Passados 15 anos, o sonho de uma vida cada vez mais próspera está ameaçada pela instalação de um projeto de irrigação do Departamento Nacional de Obras Conta a Seca (DNOCS) na Chapada do Apodi, chamado pelas famílias de Projeto da Morte.
“O primeiro risco que a gente está correndo é o fim da produção da agricultura familiar se esse projeto for implantado da forma como está sendo pensado. Porque a gente veio de uma prática baseada no uso de agrotóxicos, quando a gente trabalhava como meeiro. A gente vê os danos que esse sistema causou pra gente, principalmente, na saúde, no solo, no ar. E esse projeto a gente se contrapõe e diz que é o projeto da morte, porque a gente quase morreu fazendo essas práticas que eles vão fazer aqui na Chapada e de forma muito mais destrutiva e agressiva com uso até de pulverização aérea”, lamenta o agricultor.
Segundo Zé de Holanda, por ser uma área de assentamento, as famílias de Moacir Lucena não serão retiradas da terra, mas um dos canais do projeto vai passar a 30 metros dos lotes. Com a pulverização aérea, o veneno vai se espalhar por toda a região contaminando o solo, as fontes de água, além de eliminar 100% a apicultura e toda vida presente da Chapada, o segundo solo mais fértil do Brasil. Além disso, vai tornar as famílias escravas das grandes empresas além de problemas como crimes, alcoolismo, como aconteceu no lado cearense da Chapada, onde o projeto de irrigação já foi implantado.
“A gente mal acabou de implantar um sistema que a gente adota como justo e sustentável. Está com 15 anos que essa experiência vem dando bons frutos. Ai de repente, o mesmo governo que nos ajudou a colocar em prática essa experiência, de tirar de quem tem muito para distribuir com quem não tem nada, tá fazendo o contrário. Tá tirando de quem tem pouquinho e dando nas mãos de quem tem dinheiro pra comprar terra”, questiona o agricultor que mesmo diante dessa situação se mostra forte para lutar pela vida no Apodi.