Agricultores e agricultoras tecendo conhecimentos através da arte

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“A finalidade de representar, tanto no princípio quanto agora, era e é oferecer um espelho à natureza; mostrar à virtude seus próprios traços, à infâmia sua própria imagem, e dar à própria época sua forma e aparência”. (Hamlet).

A frase de Hamlet fortalece a ideologia do grupo de teatro Polo da Borborema, de Campina Grande-PB, quando decidiu, através da arte encenada, relatar a história de duas famílias sertanejas que vivem no Semiárido brasileiro com suas riquezas e fragilidades.  Intitulado “Margarida e Biu: Os caminhos da agricultura na Borborema”, o espetáculo de 30 minutos provoca uma reflexão sobre os conflitos econômicos, sociais e educacionais entre os modelos de produção agroecológica e do agronegócio. O espetáculo abriu as atividades na tarde do terceiro dia do III Encontro Nacional de Agricultores e Agricultoras Experimentadores para um público de 330 pessoas.

Encenado por 12 atores agricultores/as e técnicos/as da AS-PTA e do Polo da Borborema, o texto construído, a partir de um diálogo em conjunto com o grupo, relata a vida de uma família tradicional que trabalha nos moldes da agricultura convencional (Biu e Margarida) com a plantação de fumo. A peça mostra como eles se organizam para o trabalho, a dificuldade de mão de obra, de manutenção da casa e da produção dos frutos. Na peça, fica claro o endividamento e a dependência de insumos e conhecimentos externos caraterísticos do modelo de produção do agronegócio.

Enquanto que a segunda família, formada por Tota e Bila, uma família que trabalha com as receitas da agroecologia, que tem uma relação mais igual com seus membros, que tem uma organização mais equilibrada tanto do trabalho quanto da própria riqueza gerada da agricultura agroecológica, e que constrói sua segurança alimentar. “A peça faz uma provocação para que se perceba o papel de dois modelos para que as pessoas reconheçam a melhor escolha e o melhor projeto de vida no campo”, explicou a diretora do espetáculo, Adriana Galvão.

Para Roselita Vitor, atriz que interpreta Margarida, o texto propõe uma reflexão sobre o sistema do agronegócio e como ele chega de forma avassaladora, com sua enganação, impondo e oferecendo alternativas que não condizem com a realidade das famílias agricultoras. Assim, as famílias se desvirtuam dos seus modos antigos de criação animal e de cultivo do roçado.

“A peça coloca todas essas questões e faz com quer nos sensibilizemos quanto às investidas de um sistema opressor. Esse é um debate crucial para fortalecer a agricultura familiar e aproximar quem se encontram refém desse modelo hegemônico, que quer, de qualquer forma, convencer as famílias somente pelo lucro, mostrando esse lado como a única saída, sem nenhuma preocupação quanto à vida e à saúde das pessoas, sem avisar que com a fumicultura diminui a área de roçado e a água da propriedade”, disse a agricultora.

Preocupado em anular olhares preconceituosos no que se refere à inteligência do nordestino e oportunizar aos companheiros que lidam, no dia-a-dia, com o campo a conhecer novas histórias dramatizadas, o agricultor Ivanilson Estevão da Silva, que interpreta o Seu Poto, disse que não pensou duas vezes em fazer parte dessa montagem.

“A gente trabalha todos os dias no sol quente para garantir o alimento, o sustento familiar. Não temos acesso fácil à cultura, à arte, por isso, minha felicidade é poder participar de um grupo teatral, levar arte para quem nunca viu. Depois da apresentação, percebemos o brilho nos olhos de quem nos assiste. Essa experiência acrescentou o espírito de troca de conhecimento, harmonia familiar, respeito e valorização na questão de gênero. Pota não se sente dono do conhecimento. Ele constrói o conhecimento junto com os/as outros/as agricultores/as”, conta Ivanilson.

Segundo o artista educador Robert Filliou, a arte é o que faz a vida ser mais interessante que a arte. Uma definição correta quando comparada aos comentários da agricultora Edileuza Santos, do povoado Monte Alegre, município de Gararu, Sergipe. “Tenho 54 anos e nunca tinha assistido a um espetáculo, foi a primeira vez!  Além da emoção em presenciar meus colegas, pessoas como eu, passando conhecimentos de maneira tão linda, com detalhes tão importantes, me deixa muito feliz. Antes de participar desses encontros me sentia uma agricultora burra, hoje sou uma mulher, agricultora, multiplicadora de informações adquiridas em momentos como esses. A arte que vi agora vou repassar em forma de arte para que não pôde vim”, relata Edileuza, que aplaudiu de pé o espetáculo assim como todos os presentes.

Excluídos – De acordo com os dados do IBGE sobre a realidade cultural brasileira, apenas 13% dos brasileiros frequentam cinema alguma vez por ano; 92% nunca frequentaram museus; 93,4% jamais frequentaram uma exposição de arte; 78% nunca assistiram a espetáculos de dança e mais de 90% dos municípios não possuem salas de cinema, teatro, museus e espaços culturais multiuso.

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