Semiárido se encontra na abertura do 3º Encontro Nacional de Agricultoras/es Experimentadores

![]() |
Agricultores/as se empenharam na montagem da feira | Foto: Henrique Oliveira/Arquivo CAA |
“Olá meu amigo, chegaste de onde? – De Petrolina, visse! E tu, de onde vem? Ah rapaz, eu venho de longe, lá de Januária, nas barrancas do velho chico”. Ao amanhecer do dia 28, 260 agricultores e agricultoras familiares se reuniram no Garden Hotel, em Campina Grande – PB, para o 3º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores, evento promovido pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) que conta com a participação de gente de todo o Semiárido brasileiro, desde Minas Gerais até o Maranhão.
Seja de ônibus, van ou avião, as caravanas dos estados chegaram carregando expectativas, energia e alegria. “Eu saí de Morro do Chapéu (Bahia), no sábado de noite e só cheguei com o céu escurecendo de novo, mas nem ligo se estou cansado, pois a minha expectativa é de que esse encontro vai ser muito bonito, que vai ter uma grande repercussão (…). Eu inclusive tô trazendo até o Candeeiro que fizeram com a minha história pra distribuir aqui”, conta seu Luís Carlos.
Antes da abertura oficial, os agricultores e agricultoras se empenharam na montagem da Feira “Guardiões da biodiversidade cultivando vidas e Resistência no Semiárido”, que irá acolher durante todo o evento a produção e a diversidade de cores, sabores e expressões culturais de dezenas de comunidades rurais espalhadas pelos dez estados presentes no encontro.
Entre os produtos expostos estão centenas de tipos de sementes crioulas de cereais, hortaliças, ervas medicinais, entre outros tipos; doces, compotas, geleias e outros produtos feitos à base do umbu, vários tipos de mel, quitutes e artesanato típicos das várias regiões do Semiárido.
Seu Carlos Soares, popular Carlinhos, vem de Monte Alegre, no Semiárido sergipano, e conta do significado de participar de um espaço onde tantos agricultores e agricultoras experimentadores estão reunidos: “No início a gente fica cheio de expectativa pra ver o que acontece até o final, porque nós sempre esperamos muita coisa do que a gente vem construindo desde o início da ASA. Mas não é só a ASA, tem muito movimento social junto aqui, muita gente envolvida, então é sempre uma riqueza. A minha expectativa é que cada agricultor se enriqueça, que cada um leve alguma coisa para as suas comunidades”. Seu Carlinhos enaltece ainda o significado de ser experimentador: “Eu fico orgulhoso, porque além de experimentar eu multiplico, porque agricultor experimentador é multiplicador e também formador de opinião”.
A coordenadora executiva da ASA pelo estado da Paraíba, Maria da Glória Batista, enaltece a troca de experiências que o encontro irá proporcionar a todos e todas e o impacto positivo que essa troca irá gerar para as redes de agricultores e agricultoras espalhados por todo o Semiárido brasileiro. “Esse é um dos eventos mais importantes para nós da ASA Paraíba, por se tratar daqueles que cultivam a vida, que vêm fazendo um Semiárido mais rico, mais humano e dizendo que é possível conviver aqui. Então, fazer um encontro para os protagonistas dessas iniciativas, dessas inovações de conhecimento, de consciência e de convivência é muito interessante. É um privilégio para a Paraíba poder receber todos e todas aqui”.
Mística e abertura oficial – Após a montagem da feira, as caravanas dos estados se apresentaram na plenária para as boas-vindas oficiais do encontro. Expressando a cultura de cada região, os sentimentos de quem ama e cuida da terra e a valorização da convivência como caminho de resistência no semiárido, cada delegação cantou, pronunciou e discursou a sua identidade de experimentadores e experimentadoras.
Minas Gerais: ‘Peneirei fubá/ Fubá caiu / Eu tornei peneirar / Fubá sumiu’;
Sergipe: ‘Minha menina / Estrela matutina / Vivo só brincando / Como é bom ser sergipano’
Paraíba: ‘Eu sou da Paraíba esse é meu esse lugar / A cara do povo tem a minha cara / Encanto de beleza que me faz sonhar / Lugar tão lindo assim é joia rara’
Outros estados contaram histórias, poesias e lembraram as lutas que foram e continuam sendo travadas na conquista de um semiárido mais digno para se viver, e também rememoraram os acúmulos das discussões e das experiências compartilhadas nos encontros estaduais preparatórios para o encontro nacional. “Saímos de lá com a certeza de problemas, mas também encontramos soluções. No nosso Semiárido dá pra viver muito bem, se respeitarmos essa bela natureza”, afirma a delegação paraibana.
Para encerrar a mística e celebrar a abertura do 3º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores, ocorreu a bênção das sementes, simbolizando a abertura oficial da Feira da biodiversidade e enaltecendo a importância de cultivarmos e guardarmos as sementes crioulas, da paixão, da liberdade, como as sementes nativas são nomeadas por todo o Semiárido. Todos juntos cantaram “Eu sou semente nessa terra, pra semear, fazer brotar, promover segurança alimentar”.
Programação dos próximos dias – Durante a tarde, as atividades seguiram com debates na plenária, e a amanhã o encontro segue com visitas a 12 experiências de na região de Campina Grande, espalhadas pelo polo da Borborema, do Cariri e do Curimataú. Estão previstas até o final da semana ainda oficinas temáticas, apresentação teatral, a continuação da feira “Guardiões da Biodiversidade”, painéis e debates.