Águas do subsolo abastecem comunidades rurais nesta longa estiagem

Tecnologia disseminada pela ASA, a bomba de água popular (BAP), tem ajudado centenas de famílias do Semiárido a acessar águas de poços desativados ou pouco usados
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Movimentação em torno do poço reativado com a bomba de água popular em Inhapi, no sertão alagoano | Fotos: Elessandra Araújo

“Se não fosse o poço, muitas famílias da comunidade já tinham fechado as portas e saído daqui.” A afirmação é de dona Genilda Araújo Soares, que mora na zona rural do município de Cacimbinhas, em pleno sertão Alagoano. Mas também é compartilhada por dona Rosilene Bezerra da Silva, agricultora e chefe de família que mora com cinco filhos em Inhapi, outro município do sertão de Alagoas.

Para as famílias dessas mulheres e de muitas outras que vivem no Semiárido brasileiro, poder contar com a água do subsolo quando na superfície já não está mais disponível, é um privilégio. A água dos poços é reconhecida pela ASA como água de emergência e tem seu principal uso em épocas como a atual, quando por vários anos consecutivos o inverno tem sido fraco e os reservatórios não têm acumulado água em quantidade suficiente.

No município de Cacimbinhas (AL), todos os grandes reservatórios de água secaram. “A barragem Minador do Lúcio está seca. O açude Cacimbinhas, que é a força da cidade, secou. E o açude das Galinhas do Maia, também secou”, contou dona Genilda, da comunidade Sítio Novo.

No terreno de sua casa, um poço desativado desde 1995 voltou a fornecer água há três meses, depois que uma bomba de água popular (BAP) foi instalada pelo Centro de Desenvolvimento Comunitário Maravilha (CDECMA), uma das organizações que faz parte da ASA em Alagoas.

A BAP é uma roda que, quando girada de forma manual, puxa grandes volumes de água sem exigir muito esforço. É uma tecnologia de uso comunitário, de baixo custo e fácil manuseio. A instalação da BAP é uma das ações do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), realizada pela ASA em parceria com Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS).

De 2007 até 2012, a ASA instalou 508 BAPs, permitindo que muitos poços voltassem a serem utilizados ou ajudassem as famílias a extrair a água, reduzindo bastante o esforço empreendido e o tempo gasto. Para 2013, estão previstas a implantação de mais 200 equipamentos.

Segundo dona Genilda, o poço não só abastece a sua comunidade, mas à famílias que vivem até a uma légua de distância (6 km). “Hoje, nós estamos ricos”, sustenta. “É tanta gente carregando água, que dá prazer. A fila dura o dia todo. É carro de boi, caminhonete, carroça, tudo na fila por água.”

Carro de boi e seu carregamento de tonéis de água para abastecer as famílias neste inverno seco em Alagoas.

No município alagoano de Inhapi mais quatro bombas foram instaladas. Uma delas é a do Sítio Jurema, onde mora dona Rosa. “O poço tem sempre água. Cada vez mais, jorrando. Pela manhã, passam de 9 a 10 carros de boi, cada um com dois a três tonéis de 250 litros. Com certeza, o poço beneficia mais de 30 famílias”, conta entusiasmada.

“Sem o poço, a gente tinha que recorrer aos carros-pipa, que tem vendido 15 mil litros de água por R$ 80 a R$ 100, se for água de barragem, e R$ 250,00, se for do rio”, diz ela, acrescentando que a prefeitura também está distribuindo água de carro-pipa, mas a lista é enorme, “tem mais de 100 pessoas inscritas.”

Para Elessandra Araújo de Souza, do CDECMA, a realidade enfrentada pelas agricultoras Rosa e Genilda é a mesma de outras comunidades, atendidas pela organização, que conquistaram a bomba d’água popular entre 2012 e 2103. “As BAPs estão sendo a salvação das famílias no sertão de Alagoas”, garante.

No sertão do Piauí, tanto para dona Maria Luisa dos Santos Macedo, quanto para Rosimar Gomes de Macedo, a BAP tem facilitado e agilizado a extração da água. As duas moram em comunidades distintas na zona rural de Juazeiro do Piauí e se beneficiam das BAPs desde final de 2012.

Antes disso, com muita habilidade e paciência, elas conseguiam retirar água do reservatório puxando-a com uma sonda – um pedaço de cano adaptado como balde, que penetra no poço e traz a água. “A gente gastava um maior tempão, agora com a bomba é bem mais rápido”, revelou Rosimar, uma jovem agricultora que mora com os pais aposentados na comunidade de Mirador.

O poço que serve a dona Maria Luisa abastece também a mais quatro famílias da sua comunidade. Ela mesma usa a água do poço até para beber uma vez que ainda não tem ao lado da sua casa a cisterna de 16 mil litros. Segundo dona Maria Luisa, o poço tem 50 metros de profundidade, dos quais só “oito metros estão secos. No verão, baixa mais pouquinho”, garante ela.

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