Agricultores/as cearenses viajam, trocam saberes e criam laços de solidariedade
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Registro da visita do grupo à tecnologia tanque de pedra. |
Intercâmbio significa troca de experiências entre múltiplas e diferentes culturas, pessoas, comunidades. Essa é a proposta dos encontros entre agricultores e agricultoras de diferentes cidades e comunidades, promovidos pelo Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2). Nos dias 29 a 30 de agosto e 4 a 5 de setembro, famílias do sertão de Canindé receberam visitantes de Caridade, Paramoti, Aratuba e Pacajus, todos municípios do Ceará.
Cisterna-calçadão, cisterna de enxurrada, tanque de pedra, barragem subterrânea, fábrica de fertilizante orgânico, horta mandala, tudo isso foi visto em loco e dialogou com a sabedoria do campo dos/as agricultores/as, que relatavam suas experiências com as tecnologias sociais instaladas no terreno de casa. A comunidade Bemfica e os assentamentos São Francisco e Pitombeiras foram o ponto de encontro para boas conversas e aprendizados, que estreitaram as distâncias e criaram laços de afeto.
O Ceará é rico em território, com variedade de clima e de solos, algo imediatamente percebido e sentido pelos/as participantes do intercâmbio ao longo do percurso para Canindé. Muitos deles/as não tinham saído de seu município ou não tinham lembrança de uma estiagem tão severa. A diferença climática é clara porque Pacajus é litorânea, de solo arenoso, enquanto Aratuba é serrana e com a área baixa um pouco mais úmida que Canindé.
A viagem para alguns, neste sentido, foi uma aventura. Sair de sua casa para conhecer outros territórios foi uma experiência, no mínimo, marcante.
A história de cada família é de resistência, conquista e orgulho. Seu Antônio e dona Eurice moram na comunidade Bemfica e sua cisterna-calçadão tem menos de um ano. Ele cuida bem dela, remendando com cimento as rachaduras do sol, esperando as próximas chuvas para plantar suas sementes guardadas. Ele foi o único de sua comunidade que quis a cisterna em sua casa e trabalhou muito por ela.
Nas plantas que têm, eles utilizam o sistema de gotejamento com água da cisterna da casa, prática disseminada pelo programa Ater (Assistência Técnica e Extensão Rural) para mulheres rurais, que dona Eurice participou. O animador de campo e engenheiro agrônomo Luciano Brito assegura que essa técnica é a melhor para períodos secos, “é utilizar recursos possíveis, acessíveis, para irrigar pequenas plantações”, explica.
Somente a seca foi capaz desacelerar o espírito inquieto e alimentar a perseverança do casal, que precisa esperar o inverno para colocar os planos de prosperidade em dia.
Visita à propriedade de dona Creuza, onde foi construída uma cisterna de enxurrada. |
Assim também vive dona Creuza e seu Francisco, do assentamento São Francisco. Sua cisterna de enxurrada foi há pouco construída e a agricultora alerta: “quem tiver a sua que cuide, zele, agradeça a Deus e a São Francisco, porque é uma benção pra gente”.
Para Clarice Albuquerque, animadora e engenheira agrônoma, afirma que é preciso que as famílias acompanhem de perto a construção, botem a mão na massa também, pois nada vem de graça. “É preciso trabalhar, cuidar, reivindicar”. É o que todos/as comentam na roda.
A presidente do assentamento Pintombeira, Zena, reforça que o trabalho tem que ser em parceria, uma vez que lá tem boa quantidade de tecnologias coletivas: tanque de pedra, barragens subterrâneas, fábrica de adubo orgânico e horta mandala, também há uma casa de sementes, mas desativada.
Zena e Antônio, outro morador e agricultor do assentamento, explicam que estava difícil os/as agricultores/as se organizarem para manutenção da casa e para própria troca, pois, segundo eles, algumas sementes não eram bem escolhidas, o que dificultava a troca. O agricultor Cícero, de Aratuba, sugeriu que fizessem um calendário de atividades antes de qualquer iniciativa.
Em toda conversa, nas três localidades, foram trocadas muitas “dicas”, como o grupo costumava dizer. Dúvidas, sugestões, encorajamento, solidariedade, identificação, afetos. Isso tudo foi vivenciado pelos/as agricultores/as de Canindé e dos outros municípios, pela receptividade dos anfitriões e abertura dos visitantes. E estes levaram seus aprendizados para sua casa, seu quintal, roçados e sua própria vida.