Uma ação cheia de significados
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Luciano Silveira fez um histórico sobre a produção do conhecimento e o papel dela no desenvolvimento da agricultura | Foto: Gleiceani Nogueira\Asacom |
A proposta do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) da ASA foi apresentada na última quinta-feira (28), de uma forma rica e cheia de significados, durante a oficina com as novas 16 organizações que vão executar as ações do programa este ano, em Camaragibe-PE.
Coube a Luciano Silveira da ASP-TA, uma instituição com grande contribuição dentro da Articulação, contar esta história que povoou de princípios e valores a ação prática do P1+2. A pergunta motivadora desse passeio foi: “como a humanidade construiu o conhecimento?”
Para iniciar a narrativa, Silveira remontou à organização social da humanidade há 10 mil anos. Nesta época, a agricultura foi descoberta e o homem e a mulher deixaram de ser nômades e começaram a fixar morada. O começo da agricultura exigiu também uma tarefa muito importante que foi domesticar sementes, assim como se domestica animais. “Esse processo levou a uma seleção de sementes que proporcionou um melhoramento genético dos alimentos pelas populações tradicionais”, ressaltou ele.
Ao produzir alimentos e dominar esta técnica, a civilização poderia crescer. Esta relação nem sempre foi proporcional. Segundo Silveira, a humanidade em sua história evolutiva sempre passou por fases de crise de alimentos que geravam intenso processo de inovação e ampliação de conhecimento técnico.
Na história da humanidade, houve também o tempo em que os conhecimentos começaram a se diferenciar da forma de pensamento religioso predominantes até o período medieval. E assim começou a surgir a ciência como pensamento racional e que reconhecia como existente apenas aquilo que poderia ser comprovado com fórmulas matemáticas.
O método de desenvolvimento do conhecimento científico passa então a não valorizar o saber popular, que acompanhava populações tradicionais desde a sua ancestralidade. E aí começa a acontecer uma ruptura no processo de criação do conhecimento tradicional. “Uma ruptura intencionalmente produzida”, enfatiza Silveira. “O método científico se desenvolve muito comprometido com o padrão de produção agrícola industrial.”
Como consequência, Luciano afirmou que isto tudo “subtrai das famílias agricultoras o papel de controle da produção de conhecimento.” É nesta visão de mundo que nasce o modelo difusionista de técnicas agrícolas que povoam os cursos técnicos agrários e a academia, formando profissionais que acreditam que o conhecimento pertence à academia e não ao homem simples do campo.
Diante deste contexto, Luciano pergunta: “como reativar uma rede de inovação, que já esteve presente entre as famílias agricultoras, mas que foi constrangida por um modelo de conhecimento que matou a autoestima delas?”
A questão tem como pano de fundo um dos princípios que motiva a ação da ASA e estimula a prática do P1+2: o reconhecimento da capacidade criativa das famílias em construção de soluções para os desafios da região onde moram.
Ao reconhecer a capacidade inata das comunidades tradicionais, como valorizamos esse conhecimento para que ele circule melhor e seja transmitido de forma horizontal?
Esta é outra pergunta geradora da estratégia de ação do Programa. Por isso que, na estrutura do P1+2, a dimensão da comunicação tem muita ênfase com o intercâmbio de experiências dos agricultores experimentadores e agricultoras experimentadoras e a sistematização destas experiências para que eles possam difundi-las cada vez mais com outras famílias agricultoras.
Luciano apresenta essa intenção de resgatar, reconhecer e valorizar o conhecimento tradicional como o grande fio condutor. Este fio produz um efeito subjetivo imensurável que é a autonomia familiar e comunitária, gerando emancipação social de uma população que sempre foi oprimida e explorada e esteve à margem da sociedade.
Afinal de contas, conhecimento é poder. Entenda-se aqui poder como capacidade de trazer para si a responsabilidade de encarar os desafios. E se o conhecimento do agricultor é valorizado e ampliado, há um processo de tomada de consciência que vai se enraizando e que, aos poucos e de forma invisível aos olhos, toma o Semiárido pela voz do agricultor e agricultora.
Por isso que a ação que a ASA, com suas três mil organizações da sociedade civil, ecoa tão forte na região que supera, a cada dia, o estigma de lugar pobre e miserável para se tornar sustentável e próspera para os que lá residem e produzem.