Sociedade civil e poder público debatem segurança alimentar e nutricional em Pernambuco
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“Alimentação como direito social”. Com essa afirmação, o presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional de Pernambuco (CONSEA-PE), Nathanael Valle, iniciou a IV Conferência Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional, realizada entre os dias 28 e 30 de setembro, em Pesqueira, no interior pernambucano. O encontro traçou as diretrizes para as políticas nesse setor, ao mesmo tempo em que debateu as contribuições das organizações da sociedade civil e do poder público municipal e estadual na formulação das políticas nacionais.
Integrantes da Articulação no Semi-Árido Pernambucano (ASA-PE) participaram da conferência ao lado de representantes do governo federal, estadual e municipais e de diversas outras organizações da sociedade civil organizada. A diversidade étnica também compôs o público presente, incorporada pelos povos quilombolas, afrodescendentes e índios. No primeiro dia do evento, o grupo pôde discutir o regimento interno estadual das políticas da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), assim como aprová-lo. No mesmo dia, o diretor do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Marcos Dal Fabbro, apresentou o histórico das políticas da SAN nacional, apontou suas perspectivas e desafios e afirmou a importância da Conferencia Estadual para o complemento do Plano Plurianual e de como essas ações podem contribuir pra o extermínio da extrema pobreza no Brasil.
O segundo dia da conferência foi intenso e marcado pelo compartilhamento das ações desenvolvidas nos municípios e pelo governo estadual, assim como as dificuldades encontradas para esse trabalho. O desenvolvimento dos programas de Aquisição de Alimentos (PAA) e o de Alimentação Escolar (PNAE) nas cidades pernambucanas foi bastante citado, assim como as feiras agroecológicas, as cozinhas e hortas comunitárias e a higienização dos alimentos da merenda escolar. Enfatizou-se ainda a necessidade do fortalecimento dos conselhos de SAN em cada município e o maior envolvimento do poder público para que os avanços aconteçam unidos a um controle social para a fiscalização das atividades vigentes.
O secretário executivo de Agricultura Familiar, Aldo Santos, e a superintendente de Segurança Alimentar da secretaria de Desenvolvimento Social, Mariana Suassuna, explanaram sobre a atuação do governo estadual nesse campo. Diversos programas e projetos foram citados, entre eles o Programa Mãe Coruja, o Programa de Segurança Alimentar, Nutricional e Produtiva nos acampamentos e Pré-Assentamentos da Reforma Agrária, o Garantia Safra e O Programa Estadual de Apoio ao Pequeno Produtor Rural (PRORURAL), que tem parceria com organizações que compõem a ASA-PE, assim como o recente programa “Pernambuco mais Produtivo”, que apoia a agricultura familiar e leva tecnologias de armazenamento da água das chuvas para os trabalhadores rurais do interior do estado com o apoio das entidades que fazem parte da Articulação.
Ainda no dia 29, a nutricionista e professora da Universidade Federal de Pernambuco, Sônia Lucena, ministrou uma palestra enfocando o papel da sociedade e do governo para os avanços da segurança alimentar e nutricional no estado e seu envolvimento com a saúde pública. “Existe uma carência grande em Pernambuco no que diz respeito à obesidade, o sobrepeso e a desnutrição. Esses são pontos que também precisam ser trabalhados e combatidos dentro dos planos, são os eixos que norteiam a SAN”, fala a nutricionista.
Encerrando o segundo dia de evento, os participantes foram divididos em quatro grupos de acordo com suas regiões: Sertão, Agreste, Zona da Mata e Região Metropolitana. Nessa atividade, foram discutidas propostas de ações para comporem o Plano Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional. Colocou-se a necessidade de se proteger os recursos hídricos para a produção de alimentos saudáveis, o fortalecimento da agricultura familiar, a garantia do acesso à terra, o incentivo a conduta agroecológica, o combate ao uso dos agrotóxicos, a importância de se conhecer a realidade de cada população garantindo um alimentação adequada, dentre outros posicionamentos.
O fechamento da Conferência contou com a escolha dos representantes de Pernambuco para a IV Conferencia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, prevista para o mês de novembro, em Salvador (BA). Serão 26 delegados pernambucanos da sociedade civil organizada, dentre eles o coordenador do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) da ASA na ONG Chapada, Edésio Medeiros, e o coordenador de articulação política do Centro Sabiá, organização também pertencente à rede, Adeildo Fernandes.
“Para a construção do primeiro Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Pernambuco apresentará recomendações que foram frutos das 26 conferencias municipais realizadas em todo o estado com a participação ativa da sociedade civil, tendo como foco construir compromissos para efetivar o direito humano a alimentação adequada e saudável” afirma Edésio.
Agora, espera-se que a alimentação saudável como direito de todos ganhe relevância e propostas concretas, começando pela próxima Conferência Nacional que reunirá ideias de diversos estados brasileiros, incluindo as questões levantadas em Pernambuco. “Esse é um passo enorme para as coisas começarem a acontecer”, comenta Nathanael Valle, encerrando o evento.