A Vida de Margarida
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Ela se chama Margarida. Mas poderia ser Rosa, Maria, Severina ou tantas outras mulheres do Semiárido brasileiro que infelizmente se identificam com essa história. A Vida de Margarida é o nome da peça encenada pelo grupo de teatro do Pólo Sindical da Borborema durante a programação do Encontro Nacional de Diálogos e Convergências, realizado entre os dias 26 e 29 de setembro, em Salvador, na Bahia.
Margarida e sua filha Zefinha são duas mulheres que sofrem diversos tipos de violência de Biu, o marido, e Tonho, filho do casal. E não falo de violência física, essa realmente não há durante a peça. Talvez por isso Margarida e Zefinha não percebam muitas vezes o quanto estão sendo agredidas, sem que seja tocado em um fio de cabelo delas.
Biu é o marido machista que acha que o lugar da mulher é na cozinha. Exige que a comida esteja pronta na hora, pede o dinheiro que a esposa juntou com a venda das galinhas, proíbe a filha de sair de casa. O filho Tonho segue o mesmo caminho do pai. Desrespeita a mãe e a irmã, repetindo maquinalmente atitudes machistas arraigadas na nossa sociedade.
Margarida e a filha Zefinha continuam na luta diária, fazendo sozinhas todo o serviço de casa, ajudando no roçado e ainda sem o direito de tomar as próprias decisões. As duas mulheres são exploradas, têm seu trabalho doméstico invisibilizado, sofrem preconceito dentro da própria casa, e o pior, são tidas como invisíveis.
Em uma das cenas, um técnico de uma fictícia empresa de desenvolvimento rural vai visitar a família. Ao chegar lá e encontrar apenas Margarida e Zefinha, pergunta: “Não tem ninguém em casa?”. E mesmo sem perceber que foi totalmente desconsiderada como ser humano, Margarida se limita a responder “Meu marido está no roçado”.
É nesse cenário que a peça pretende trazer para a discussão a violência contra as mulheres. Apesar dos risos durante a apresentação, A Vida de Margarida causa indignação em quem assiste. Muitos consideram que a encenação traz muitos exageros. Mas a verdade é que ela incomoda, toca lá no fundo e faz com que muitas mulheres se identifiquem aqui e ali com a vida de Margarida, que poderia ser a vida de Joana, de Renata, de Clarisse. Pode ser a nossa vida.
ASSISTA A UM TRECHO DA PEÇA A VIDA DE MARGARIDA