Poema da Água, por Valdirene Alves

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Ontem eu não queria ser igual a minha mãe
Ser igual a minha tia
Enrugadas a testa da terra dura
Calejadas as mãos que as minhas costas esfregava
Parecia a pedra da serra que tinha nos fundos da minha casa
Ontem eu não pensava em casar
Casar pra quê?
Pra ficar velha e cansada
Cheia de filhos
Barriga quebrada
Encostada num fogão de lenha
Vendo os sonhos indo como fumaça
Virando cinza

Mas é que não me conhecia,
julgava que via um modelo da mulher que não queria ser
Aquela que o sertão desenha quando não se tem esperança de nada mais
ter

Mas quem eu era não sabia
mesmo que o soubesse, não acreditava que o sol a ASA traria
Andava atrás de mim… e eu não me via!
Hoje tenho a nítida clareza do que quero

Quando sinto
Quando vejo água na altura de minhas coxas
a fonte começa a ser rio dentro de mim
na cintura aos joelhos
Encharcando-me de sonho

Já não me importo dos modelos que vejo
Não me importo se os seios descerão a cintura abaixo
E se aparência de quarenta terei aos vinte
O que importa é que agora tenho a força da água

Em meu eu
o sol é secreto,
cego o silêncio
A sede é a fala

* Valdirene Alves é auxiliar administrativo do P1MC da organização Sasac, em Sergipe

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