Sementes da vida, da fartura e da gente
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Experiências foram apresentadas durante as oficinas. | Foto: Fernanda Cruz. |
Os agricultores/as experimentadores do Semiárido aprofundaram seus conhecimentos sobre o cultivo e preservação das sementes nativas na manhã de hoje (30), durante as oficinas do 3º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores.
As oficinas evidenciaram outras experiências bem sucedidas nesse campo, dialogando com o que foi visto ontem (29), durante as visitas de intercâmbio, quando os participantes do encontro puderam conhecer as experiências dos guardiões da vida e da biodiversidade da Paraíba.
Dona Antônia Arruda, de Massapê, no Ceará, apresentou a experiência desenvolvida em rede na região, numa ação em parceria com a Cáritas e com os sindicatos locais. Atualmente, o grupo conta com 13 casas de sementes e, segundo ela, a estruturação desses espaços foi fundamental para a organização das comunidades. Ela ainda explicou que no Ceará o espaço é chamado de casa e não banco de sementes, “porque entendemos que não devemos reforçar a lógica dos bancos convencionais”, explica ela, se referindo as instituições financeiras.
Outra experiência apresentada foi a de Seu Carlinhos, de Monte Alegre, em Sergipe. Ele contou desde o início da sua trajetória como agricultor experimentador, em 2000, após um encontro em Juazeiro/BA. “Todo dia eu fazia minha barba para ficar mais bonito e achava que com a terra era assim também. Tinha que arrancar tudo, para ficar mais bonito também. (…) Quando voltei desse encontro eu era outra pessoa. Hoje tenho um pedacinho de chão, que é um paraíso”, conta ele.
Há 1 ano, Seu Carlinhos está à frente do banco de sementes comunitário, que já conta com uma média de 12 variedades de sementes. Ele ressalta a importância desse trabalho e da troca de informações entre os agricultores. “O que estou trazendo aqui é porque quero que tenha sucesso em todo canto”, diz ele sobre a sua experiência. Seu Carlinhos também tem uma preocupação quanto à qualidade das sementes que estão sendo disseminadas hoje pelo Semiárido. “Queremos a nossa semente variada, plantada sem veneno. Quando se fala em morrer [em virtude das sementes contaminadas], eu fico preocupado. Quero chegar aos 100 anos”.
A última experiência apresentada veio do Semiárido mineiro e é protagonizada por Seu Cristovino Ferreira. Em 82 hectares de terra, ele não só é guardião das sementes da gente, como são conhecidas as sementes crioulas em Minas Gerais, como também cultiva uma agrofloresta, da qual fala com orgulho. “Tenho pequi, banana, manga, hortaliças, mandioca”, conta ele.
Onde Seu Cristovino mora ainda não há um banco de sementes comunitário, mas ele guarda suas sementes em casa. Só de feijão ele chega a ter 14 variedades, enquanto de mandioca ele contabiliza 20 tipos diferentes. Sabiamente, ele explica que esse trabalho é compartilhado com a família, em especial com sua esposa, Dona Vá. “Eu estou aqui no encontro e ela está cuidando das sementes lá. Saí e deixei umas sementes de abóbora que sei que ela colocou pra secar e cuidou delas. As mulheres têm uma importância muito grande. Aprendi na escola que a mulher aprendeu a agricultura, pois ela que viu a semente nascer e colocou pra plantar”.
Para Cleonice Menezes, do Ceará, estar num espaço como esse é uma grande oportunidade. “Aqui a gente aprende a viver bem com pouca água e ver a importância de lutar pela associação, pela organização dos jovens, (…) o que a pessoa conhece aqui, vai levar pra vida inteira”, comenta.