Agricultores/as do sertão paraibano se preparam para encontro estadual em Campina Grande

Veneração às sementes nativas e ao agricultor experimentador como defensor da biodiversidade foram momentos que marcaram a discussão do encontro preparatório territorial do sertão
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Mística de abertura cultuou as sementes crioulas | Foto: Eudes Costa

Um caminho de sementes desenhada no chão, várias mãos entrelaçadas numa corrente que saúdam e reverenciam a história e a luta dos guardiões das sementes da paixão, e do protagonismo das agricultoras e dos agricultores experimentadores que defendem a biodiversidade. Foi assim, numa mística de abertura, que as entidades que compõem a ASA no alto sertão paraibano, iniciaram o Encontro Territorial do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), e o Microrregional do Programa Um Milhão de Cisternas Rurais (P1MC), entre os dias 27 e 28 de setembro, no auditório do Instituto de Ciências e Tecnologias da Paraíba (IFPB/Campus de Sousa).

O encontro reuniu vários atores sociais para refletir e debater sobre um conjunto de experiências de manejo da agrobiodiversidade. Participaram cerca de 80 pessoas, vindas de diversas comunidades do território do alto sertão. Trazendo suas experiências dos bancos de sementes, da criação de pequenos animais da raça nativa, dos quintais produtivos, do manejo agroflorestal e da autonomia das mulheres.

As temáticas foram sistematizadas e repassadas nas oficinas durante a manhã do primeiro dia; os grupos se dividiram na dinâmica do carrossel, onde puderam interligar os diálogos que foram construídos em cada experiência, tirando de suas bagagens o conhecimento, e devolvendo numa troca de saberes, mostrando a viabilidade das alternativas de convivência com o Semiárido.

Na plenária, os temas mobilizadores foram discorridos em uma breve análise feita pelo professor de agroecologia e veterinária do IFPB, Chico Nogueira, que destacou a importância do encontro como um momento para alavancar e fortalecer a ideia de que o agricultor experimentador é uma fonte de conhecimento para a fase de transição agroecológica. “As histórias aqui contadas das experiências falam por si só, trazem um conhecimento que é fundamental para que os agricultores e as agricultoras possam viver no lugar de forma sustentável. É um conhecimento construído ao longo do tempo, onde aprenderam com a natureza, com a observação, com a experimentação, sem agredir, mas com equilíbrio. Por isso, a natureza dá um retorno, ensinando a viverem no lugar onde eles estão. Estamos construindo um caminho novo e diferente, por que um dia disseram para gente que agricultor e agricultora não tinham conhecimento, que eles eram ignorantes, que eles não sabiam de nada, estamos fazendo o contrário disso; estamos mostrando que o povo que pensaram assim, estava errado, e que essa nova alternativa de vida no campo é a saída em contraposição ao modelo hegemônico”, enfatizou Chico Nogueira.

 
Cerca de 80 pessoas participaram do evento | Foto: Eudes Costa 

Para a representante da Comissão Executiva da ASA PB, Elza Gomes, o encontro tem uma sequência em que a força das experiências não se encerra nesse evento preparatório, mas, que elas irão se somar a tantas outras no encontro estadual no início do mês de outubro, em Campina Grande; e que o diferencial dessas experiências, marca especialmente pela intensidade de como elas se mostraram tão vivas diante de um momento crítica para agricultura familiar, devido às poucas chuvas nos últimos anos, e pelo evento ter realizado uma oficina da autonomia das mulheres. “Esse encontro está acontecendo aqui no alto sertão, mas também ele está acontecendo em outras regiões, e estarão nos dias 3 e 4 do próximo mês se somando com outras experiências do estado. As experiências nos surpreenderam, diante de um quadro de três anos de estiagem na região, ter os quintais produtivos, os plantios de alimentação animal, da forma como foram preparadas esta semana, são experiências reais, as fotografias, os depoimentos são coisas de hoje. Não existe maquiagem, existe sim, uma forte mudança de nossa realidade, e isso se concretiza quando abordamos, inclusive, a autonomia das mulheres, que vem desenvolvendo um trabalho importante nas áreas de assentamentos, nas comunidades, mas são pouco visualizadas. Então, essa é a nossa missão nesse lugar, levar à tona todo um trabalho de direitos e transformação social”, acrescentou Elza Gomes.

Nos encaminhamentos finais, foram escolhidos os representantes, as experiências e os delegados do território para o encontro estadual, que terá como tema central Agricultores/as Guardiões da Biodiversidade, Cultivando Vidas e Resistência no Semiárido, o qual também será um momento preparatório para o Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores do Semiárido, que acontecerá no final do mês de outubro, em Campina Grande (PB).

Em preparação constante e de ânimos firmes, os agricultores e agricultoras se fortalecem e aguardam ansiosos/as os eventos onde possam dividir com os/as demais companheiros/as de caminhada suas experiências nesses dois grandes momentos da ASA Paraíba e da ASA Brasil.

O evento faz parte da dinâmica de articulação existente na região e no estado, a partir das organizações que compõem a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), a Associação dos Apicultores do Sertão Paraibano (ASPA), Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais de Aparecida (STTRA) e a Central das Associações dos Assentamentos do Alto Sertão Paraibano (CAAASP).

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