Carta do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste
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O Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE) vem publicamente manifestar o seu apoio à Articulação no Semi-Árido (ASA) após a declaração do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome de não promover a continuidade da parceria com a ASA. Consideramos que a ausência da sociedade civil organizada na implantação e execução do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) traz implicações seriamente danosas às trabalhadoras e aos trabalhadores do Semi-Árido brasileiro, além de significar um retrocesso no desenvolvimento da região.
Durante os oito anos de parceria com o governo, a exemplar gestão e execução desses programas pela ASA já lhe rendeu o reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU), da Controladoria Geral da União e do próprio governo federal, que em 2010 entregou à Articulação no Semi-Árido o Prêmio Direitos Humanos, na categoria de Enfrentamento à Pobreza. Contudo, nós compreendemos que os resultados exitosos dessa parceria são medidos principalmente pela inclusão e qualidade de vida das pessoas e comunidades no Semi-Árido.
São 371.728 cisternas construídas até hoje. Cada cisterna implantada significa uma família e uma comunidade diretamente envolvida no processo de formação, inclusão e incidência política. Por trazer reflexões sobre o desenvolvimento local, com base nas experiências e na sabedoria das pessoas, a execução dos programas pela ASA foi determinante para o empoderamento e a autonomia dessas famílias. Destacamos ainda a participação ativa das mulheres e das crianças, que são as mais atingidas pela falta da água e assumiram suas condições de agentes de transformação social nas comunidades.
A ausência da sociedade civil organizada da gestão dos programas e a substituição das cisternas de placa por cisternas de plástico simbolizam a volta da “indústria da seca”, que trouxe tanta exclusão social, política e econômica, além de desvalorizar o/a sertanejo/a enquanto sujeito/a e agente de direitos. Consideramos que as cisternas de plástico produzidas por empresas privadas só trarão dependência e enfraquecimento para a população local. O Governo Federal deve reavaliar com urgência sua posição e renovar laços de parceria com mulheres e homens do Semi-Árido brasileiro.
Nós acreditamos na ASA.
Saudações feministas rurais,
Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste